Ive Camanducci explica os limites da IA na terapia e os riscos de substituir o cuidado humano no atendimento emocional.

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IA na Terapia: Alívio Pontual ou Risco para a Saúde Mental?

Tecnologia promete apoio emocional, mas especialistas alertam sobre os perigos de substituir o cuidado humano.

Por Marcelo Aquino em 24/08/2026 às 06:44:32

Ainteligência artificial (IA) tem se infiltrado em diversas áreas de nossas vidas, e agora, surpreendentemente, também na esfera da saúde mental. Uma prática que vem crescendo é o uso de IA para realizar terapia, sem a devida supervisão profissional. A agência de estudos de comportamento Talk Inc. estima que nada menos que 12 milhões de brasileiros já utilizam essa tecnologia para um acompanhamento psicológico. Essa tendência, no entanto, acende um alerta entre psicólogas sobre os reais limites da IA no cuidado das nossas emoções.

É inegável que a tecnologia pode oferecer um espaço percebido como seguro, funcionando como um verdadeiro porto seguro para desabafos. Esse ambiente pode, sim, contribuir para o bem-estar emocional e até mesmo aliviar sintomas de ansiedade e depressão. O ponto crucial, porém, reside na diferença entre simplesmente expressar sentimentos e, de fato, elaborá-los terapeuticamente. Um desabafo com a IA pode trazer um alívio momentâneo, mas a verdadeira terapia se constrói em uma relação clínica sólida, fundamentada na escuta qualificada, no vínculo estabelecido e na contextualização profunda da história de cada paciente.

O Convite da IA para a Idealização

Célia Horta, mestre e doutora em Psicologia pela USP, aponta que o espaço para desabafo com uma IA pode ser promissor para algumas pessoas.

“Falar sobre problemas emocionais faz com que uma pessoa tenha que admitir as próprias dificuldades e se abrir a outras pessoas. Em muitos casos, as pessoas preferem se manter idealizadas e a inteligência artificial é o convite certo para isso”, afirma Horta.

No entanto, ser respondido por um algoritmo é muito diferente de ser compreendido e acolhido por outro ser humano. Um profissional é capaz de captar nuances sutis, como hesitações, olhares e silêncios significativos, elementos que podem ser cruciais para o desenvolvimento emocional e a formação de vínculos genuínos.

Ive Camanducci, psicóloga especializada em Terapia Cognitivo-Comportamental e Sistêmica, complementa:

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Nem tudo que sentimos ou pensamos precisa ser validado. Em certos momentos, o terapeuta precisa ajudar a pessoa a ampliar perspectivas, questionar interpretações, reconhecer responsabilidades, tolerar frustrações e construir novas formas de se relacionar consigo mesma e com os outros.

Riscos em Momentos de Vulnerabilidade

O perigo se torna ainda mais evidente quando alguém começa a tomar decisões importantes sobre sua saúde mental baseando-se unicamente nas respostas da IA. Essa prática pode se tornar arriscada, especialmente em situações de extrema vulnerabilidade, como pensamentos suicidas, relatos de violência, abuso, desorganização psíquica ou outras emergências que demandam intervenção humana especializada.

Apesar dos pontos de atenção, as terapeutas reconhecem que conversar com uma IA pode trazer alguns benefícios, desde que os limites dessa utilização sejam claros. Segundo Camanducci, a tecnologia pode ser útil para um alívio emocional pontual, para organizar pensamentos antes de uma consulta com um profissional ou para preparar questionamentos a serem feitos ao terapeuta. Contudo, o alívio circunstancial jamais deve ser confundido com um processo terapêutico completo.

A IA como Ponte, Não como Destino

A discussão, portanto, não se trata de proibir o uso da inteligência artificial para questões emocionais, mas sim de estabelecer seus devidos limites. Enquanto a IA pode ser uma aliada em situações específicas, ela jamais deve ser vista como um substituto para a terapia e para a relação terapêutica construída entre paciente e profissional.

Ive Camanducci conclui:

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A IA pode ser uma ponte para o cuidado, mas não deve se transformar no destino final desse cuidado. Os psicólogos trabalham com sua história, seus padrões emocionais e relacionais, comportamentos, vínculos, contexto familiar e social e também com aquilo que vai se revelando ao longo do próprio processo terapêutico.
SOBRE A AUTORA

Ive Camanducci

Psicóloga | Terapia Cognitivo-Comportamental e Sistêmica

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