Ive Camanducci analisa os limites da IA na terapia e explica usos possíveis sem substituir o cuidado profissional.
Terapia com IA: Os Limites da Inteligência Artificial no Cuidado Emocional
O uso da inteligência artificial para questões emocionais vem crescendo e já faz parte da rotina de algumas pessoas que procuram a tecnologia para conversar sobre problemas, organizar pensamentos ou buscar algum tipo de alívio emocional.
A tecnologia pode proporcionar um ambiente percebido como seguro e funcionar como um espaço de desabafo, inclusive para pessoas que têm dificuldade de falar sobre suas questões com outras pessoas. No entanto, existe uma diferença importante entre expressar aquilo que se sente e elaborar terapeuticamente uma experiência emocional.
Enquanto uma conversa com uma ferramenta de IA pode proporcionar alívio imediato, a psicoterapia envolve uma relação clínica baseada em escuta qualificada, vínculo e compreensão contextualizada da história de cada paciente.
Desabafar com uma IA é diferente de fazer terapia
A psicóloga Célia Horta, mestre e doutora em Psicologia pela USP, observa que o espaço de desabafo proporcionado pela inteligência artificial pode ser promissor para algumas pessoas. A possibilidade de falar sobre dificuldades emocionais sem a presença imediata de outra pessoa pode facilitar uma primeira aproximação com aquilo que causa sofrimento.
Por outro lado, uma inteligência artificial não ocupa o mesmo lugar de um profissional que acompanha emocionalmente uma pessoa. A interação humana permite observar elementos como hesitações, silêncios, expressões e outras formas de comunicação que fazem parte da construção do vínculo terapêutico.
Para Ive Camanducci, psicóloga especializada em Terapia Cognitivo-Comportamental e Sistêmica, essa diferença é fundamental para compreender os limites da tecnologia no cuidado emocional.
Quando o uso da IA pode se tornar preocupante
Um dos principais riscos aparece quando uma pessoa começa a tomar decisões importantes sobre sua saúde mental exclusivamente com base nas respostas oferecidas por uma ferramenta de inteligência artificial.
O cuidado exige atenção ainda maior em situações de extrema vulnerabilidade, como risco de suicídio, violência, abuso, desorganização psíquica ou outras situações de emergência. Nesses contextos, uma ferramenta tecnológica não deve ser tratada como substituta do atendimento profissional adequado.
Isso não significa que toda utilização da inteligência artificial para questões emocionais seja necessariamente negativa. As profissionais ouvidas pela matéria reconhecem que a tecnologia pode ter usos pontuais e complementares, desde que seus limites estejam claros.
Possíveis usos da inteligência artificial
Segundo Camanducci, a tecnologia pode ser utilizada de maneira mais adequada em situações como o alívio emocional momentâneo, a organização de pensamentos antes de uma consulta e a preparação de perguntas ou temas que a pessoa deseja levar ao terapeuta.
Nessas situações, a IA pode funcionar como uma ferramenta auxiliar. Entretanto, o alívio circunstancial proporcionado por uma conversa não equivale a um processo psicoterapêutico.
A diferença está justamente na continuidade do cuidado, na compreensão individualizada da história e na construção de uma relação terapêutica capaz de trabalhar pensamentos, emoções, comportamentos e padrões relacionais.
IA como apoio, não como substituta da terapia
A discussão sobre inteligência artificial e saúde emocional, portanto, não se resume a impedir ou permitir seu uso. O ponto central está em estabelecer limites claros para que a tecnologia seja utilizada de maneira responsável.
Em situações pontuais, a IA pode auxiliar na organização de pensamentos, oferecer um espaço inicial de reflexão e ajudar uma pessoa a estruturar aquilo que deseja discutir posteriormente com um profissional.
Mas a psicoterapia trabalha com elementos que vão além de uma resposta textual. O processo envolve a história da pessoa, seus padrões emocionais e relacionais, comportamentos, vínculos, contexto familiar e social e aquilo que vai sendo revelado ao longo do próprio acompanhamento.
Por isso, utilizar uma ferramenta de inteligência artificial para conversar sobre emoções não deve ser confundido com estabelecer uma relação terapêutica. A tecnologia pode apoiar o caminho até o cuidado, mas não substitui a relação construída entre paciente e profissional.
Este conteúdo foi publicado originalmente por Forbes.
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